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Na década de 60 eles pratagonizaram Stonewall. Em 70, saíram do armário. Nos anos 80 enfrentaram a AIDS e, nos 90, firmaram pé no mercado de trabalho. Agora, a geração de gays e lésbicas americanos que fizeram a história dos homossexuais na América encontram-se às voltas com a aposentadoria. Tempos felizes, hora de descansar e aproveitar o bom da vida, diriam os otimistas. Não é bem assim. Para eles, a velhice tem trazido dissabores para além daqueles tão naturais ao fim da vida. Quebrantados pela idade e por dificuldades financeiras, eles estão tendo que voltar para o armário. Em outras palavras, têm que ocultar sua condição de homossexuais na fase da vida em que mais prezam a liberdade. "Quando chegam à velhice, gays e lésbicas não estão mais tão dispostos a se colocarem em risco", disse à no. Sean Cahill, diretor do Instituto de Políticas da National Gays and Lesbian Task Force. "Nesses casos, a solução tem sido ocultar a homossexualidade". Estima-se que existam hoje entre 1 milhão e 3 milhões de gays e lésbicas com mais de 65 anos nos EUA - número que deverá triplicar até 2030 graças à geração baby-boom. A enorme maioria não tem filhos e cerca de dois terços não conta com um companheiro ou companheira. Quando os males da velhice atacam, têm que pedir ajuda a estranhos ou pagar por serviços profissionais. É aí que os problemas vêm à tona. Apenas uma pequena parcela dos 3.000 asilos públicos dos Estados Unidos possui uma política de tratamento amistoso aos gays e lésbicas. Não é muito diferente em instituições privadas ou mantidas por igrejas. Uma pesquisa realizada em 20 dessas instituições em Nova York delineou a extensão do preconceito entre assistentes sociais e suas equipes: 52% mostraram-se intolerantes ou condenaram a prática homossexual; 38% recusaram-se a responder sobre o tema. Os dados trouxeram à tona um paradoxo indigesto. Nova York não seria mais o paraíso da tolerância aos homossexuais? "A cidade continua muito legal, mas nesse caso temos um problema bem específico", explicou à no. Howard Liefman, diretor da SAGE, entidade de defesa dos gays e lésbicas idosos. "Asilos e casas de enfermagem de Nova York pagam baixos salários e a maioria dos funcionários são hispânicos, pouco afeitos ao clima de liberdade sexual da nossa cidade". Nas grandes metrópoles tais diferenças culturais são a fonte dos problemas de homossexuais idosos. E no interior do país - onde vive a maioria deles - reina o tradicional conservadorismo americano. O preconceito se manifesta sob diversas formas. Em uma dessas instituições, uma senhora viu a enfermeira se recusar a lhe dar banho sob a justificativa de não queria tocar no corpo de uma lésbica. Em outra, um funcionário ameaçou expulsar um gay se ele reclamasse nos maus tratos recebidos devido à sua opção sexual. Certo constrangimento também ocorre no relacionamento cotidiano com os companheiros de residência - heterosexuais em sua maioria. "A convivência é algo complexo. Afinal, gays e lésbicas geralmente não tem fotos dos filhos e netos para trocar na hora do chá", lembra Howard. Para parceiros que vivem juntos e que necessitam de assistência, negar as evidências não é simples. Um casal de gays foi surpreendido quando fazia sexo no quarto de um desses asilos. Depois de uma sindicância, um deles foi transferido para uma instituição que aloja portadores de deficiência mental. A aposentada Edie Windsor, de 71 anos, e sua companheira, de 69, vivem o drama. Ela já sofreu um ataque cardíaco e sua companheira movimenta-se sobre uma cadeira de rodas. Ambas não podem contar com a família, que consideram homofóbica. Edie e sua mulher pertencem a um seleto clube de abastados e por isso podem gastar cerca de 40.000 dólares com assistência médica por ano. Têm enfermeiros de plantão durante 12 horas por dia e assistência medica de qualidade. Mas nada disso alivia a dor emocional do casal. Como temem represálias da empresa de saúde e maus tratos dos enfermeiros, elas ocultam o relacionamento. Já ouviram piadas sobre gays contadas pelos profissionais que as assistem. "Tentamos nos manter alertas para reprimir gestos de carinho e ternura entre nós durante o dia", disse Edie. Elas mantém alguns cômodos do apartamento trancados. Lá estão expostas as fotos e documentos que revelam a duradoura vida conjugal. Howard é gay, psicólogo, tem 45 anos e um parceiro estável. Ele teme pela própria sorte no futuro. "A velhice é um dos principais problemas para mim e meu companheiro", diz. "Não temos filhos e nossos familiares estão envelhecendo junto conosco. Só teremos alguma garantia de paz pela via legal". Howard é apenas uma das muitas novas vozes que tem se levantado entre os ativistas gays americanos em busca de atenção à causa. O movimento gay americano está assustado com as dimensões do problema e a discussão do futuro dos idosos está em pauta. Há várias entidades que tentam minimizar as agruras do envelhecimento gay. Foram criadas atividades voltadas exclusivamente a gays e lésbicas com mais de 65 anos - inclusive clubes de namoro para gerar apoio mútuo. Discute-se também a abertura de asilos voltados exclusivamente a homossexuais, mas a idéia encontra certa resistência entre aqueles que recusam o abrigo no gueto. A Pride Senior Network é uma as mais ativas defensoras do respeito aos gays idosos. Tem uma verba de 3 milhões de dólares anuais e escritórios em Nova York, Washington, Boston e Los Angeles que trabalham em prol desses direitos. Estudos revelam que há boas chances de conquistas pontuais no curto e médio prazo. Uma pesquisa nacional do Instituto Princeton revelou que 57% dos americanos concordam que casais gays e lésbicas tenham os mesmos direitos que heterossexuais sobre os benefícios da previdência social. "Há um clima favorável e pretendemos utilizar o debate atual sobre a previdência para tentarmos avançar alguns direitos", explica Cahill. A entidade também quer incluir entre as cláusulas para credenciamento de asilos e casas de enfermagem a exigência de que seus funcionários passem por um treinamento a fim de evitar a discriminação de gays e lésbicas. Enquanto as garantias legais são apenas uma esperança, alguns poucos endinheirados abrigam-se em asilos privados exclusivos para homossexuais instalados em Seattle, Boston e algumas cidades da Flórida. Desembolsam uma pequena fortuna anual pelo privilégio de terem dignidade no fim da vida.
Fonte: No.: IG