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Quase um ano após sua morte, CD traz inéditas de Cássia Eller

Cássia Eller está viva, quase um ano após sua morte, em 26 de dezembro de 2001. Sai na próxima semana o CD "10 de Dezembro" -a ocasião de edição e o título se referem à data de seu nascimento (ela faria 40 anos daqui a quatro dias).

Para concretizar a homenagem, o produtor e parceiro Nando Reis e a banda com quem Cássia trabalhou nos últimos anos de vida se reúnem para cobrir gravações inéditas retiradas de demos, sobras de estúdio e registros ao vivo.

Reis refez arranjos de canções antes descartadas (como "No Recreio", que entraria no disco de 99, ou "Vila do Sossego", de Zé Ramalho, cogitada para o "Acústico MTV" de 2001) e as recheou de participações especiais póstumas, como de Zélia Duncan, Xis, Gilberto Gil, Frejat e outros.

Em geral avessa à mídia, a companheira de Cássia, Maria Eugênia Martins, 41, fala à Folha sobre a validade de recuperar e retocar gravações que a artista não lançou em vida: "Nando Reis conheceu muito profundamente o lado musical de Cássia, eles viveram um casamento muito bom. E são os músicos dela que estão ali. A gente sabe que procuraram respeitá-la ao máximo, e dessa maneira acho que não há problema".

Segundo ela, não é o que acontece, por exemplo, no caso de um disco abortado de Cássia fazendo blues com Victor Biglione. "Esse caso é delicado, porque ela tinha muitas restrições, não ficou satisfeita com o resultado. A gente prefere não mexer", diz a companheira da artista, que acompanhou todos os passos de sua carreira, deslanchada a partir de 90.

Eugênia não nega que tenha restrições à exploração excessiva do legado: "Tenho enorme carinho pelo projeto de Nando, mas este já é o terceiro lançamento desde a morte dela [os outros foram coletâneas], acho isso um pouco exagerado. Mas é questão de lucro, não tenho poder de decisão".

Ela comemora o acordo que lhe deu a guarda definitiva de Francisco, 9, filho de Cássia que criavam juntas: "Graças a Deus tudo foi resolvido da melhor forma, o senhor Altair [pai de Cássia] aceitou um acordo e abriu mão da tutela. Foi um grande alívio para mim e principalmente para Francisco, que se colocou de uma maneira muito firme. Tenho conseguido mantê-lo saudável e equilibrado, apesar da 'brabeira' toda".

Conta a mecânica da perda, vivida com o filho: "A gente se protege muito, às vezes tem crise, mas nunca um perto do outro. Sei que ele chora com os amigos dele, e quando vê Cássia na TV olha para mim para ver se o olho enche de água. A gente se apóia, não caí em depressão em momento algum por causa dele. Triste foi ela ter morrido. O resto, não".

Fragmentos

Nando Reis tenta particularizar a delicada decisão de vasculhar e recriar a obra de um artista que não pode mais opinar: "Esse projeto é uma reação contra a natural tendência de se apropriar de espólios de forma malfeita. É fruto da frustração de Cássia ter morrido. Não é uma profanação, não é mórbido. É uma celebração".

Se ele tem razão no que diz (e no CD sua "Fiz o que Pude" parece refletir sobre isso), o resultado ainda assim sofre por suas limitações. Não se fecha ali um projeto autoral de Cássia; "10 de Dezembro" é uma colcha de fragmentos de momentos muito díspares e divergentes de sua história.

Resulta íntegro e sincero, como Nando quer, mas não é possível esquecer que desnuda canções instáveis, que não passaram pelo crivo de qualidade de Cássia Eller. Feito o que se podia fazer, traz saudade. E incômodo.